O terceiro dia (11/04) do 4º Encontro Nacional de Mulheres do SINASEFE foi marcado por intensos debates, trocas de experiências e fortalecimento da luta coletiva das mulheres da Rede Federal.
A programação teve início com a mesa “Tempo de cuidar, tempo de lutar, tempo de viver”, que abordou os desafios do trabalho de cuidado, historicamente invisibilizado e sobrecarregado para as mulheres, além das lutas cotidianas e da construção de políticas institucionais que garantam melhores condições de vida e trabalho.
Na sequência, a mesa “Nem precarizadas, nem exaustas: jornada, condições de trabalho e aposentadoria das mulheres na Rede Federal” trouxe reflexões fundamentais sobre a sobrecarga, a precarização do trabalho e os impactos dessas condições na saúde e no direito à aposentadoria das servidoras.
A diretora de Aposentados do SINASEFE Natal Sônia Moura e a servidora Socorro Silva participaram das intervenções das mesas e contribuíram com o debate. Confira o resumo do terceiro dia da atividade:
Mesa 3 – Tempo de cuidar, tempo de lutar, tempo de viver: políticas institucionais para as mulheres na Rede Federal
A atividade da manhã teve como tema “Tempo de cuidar, tempo de lutar, tempo de viver: políticas institucionais para as mulheres na Rede Federal“. Amália Cardona (docente do IFC), Guery Baute (TAE do IFSP), Helena Rocha (docente do IFPA) e Silvana Pineda (aposentada docente do CMPA) palestraram nesta mesa, saiba mais sobre elas aqui.
Amália Cardona criticou o conceito de “normalidade” capitalista e defendeu a organização coletiva para disputar recursos e garantir a inclusão real de PCDs. Guery Baute denunciou a exaustão feminina como um mecanismo estrutural e destacou o conhecimento dos direitos como ferramenta de emancipação. Helena Rocha abordou o enfrentamento ao racismo e ao etarismo, e a importância de honrar a ancestralidade e as pessoas que vieram antes, mencionando o símbolo da Sankofa. Silvana Pineda refletiu sobre o envelhecimento das mulheres trabalhadoras, a urgência do desmonte da militarização e os impactos climáticos sobre as mulheres.
Amália Cardona iniciou sua fala provocando uma reflexão profunda sobre a construção histórica e política dos conceitos de normalidade e deficiência. Ela denunciou como a ideia de sujeito “normal” foi moldada por testes de inteligência e padronizações para servir estritamente à lógica capitalista, definindo como ideal aquele que é dócil, produtivo e capaz de suportar jornadas exaustivas sem “atrapalhar” a engrenagem institucional com demandas por direitos. Para Amália, esse conceito carrega um caráter inerentemente violento, pois desumaniza e invisibiliza qualquer modo de existir que não se enquadre em um padrão de produtividade desenfreada e obediência.
Ao transpor essa crítica para a realidade da Rede Federal, a docente defendeu que a ausência de políticas institucionais para mulheres e pessoas com deficiência não deve ser lida apenas como uma mera falha moral ou falta de “bondade” individual de quem ocupa cargos de chefia. Para ela, a resistência em garantir direitos básicos, como a redução de jornada para cuidadoras ou a criação de salas de regulação sensorial, é uma escolha política baseada na economia de recursos e na manutenção do trabalho a qualquer custo. Amália reforçou que as gestões não possuem preparo real para a inclusão e que a estrutura atual da educação profissional acaba por inutilizar existências em nome da métrica institucional.
Concluindo sua intervenção, Amália ressaltou que a deficiência precisa ser compreendida como uma questão de estrutura e classe social, exemplificando que muitas barreiras físicas e sensoriais tendem a ser mitigadas para quem possui recursos financeiros, enquanto a classe trabalhadora enfrenta o impacto direto da falta de acessibilidade. Com dados sobre a baixa representatividade de PCDs no serviço público federal, ela convocou à organização coletiva para a disputa ativa do orçamento e dos recursos públicos. Para ela, a emancipação não virá da caridade, mas da união das mulheres para transformar a estrutura do Estado e garantir o direito de habitar as instituições de forma plena e saudável.
Guery Baute propõe um deslocamento fundamental ao analisar o cansaço feminino, afirmando que a exaustão da mulher não deve ser lida como um problema individual, mas como um mecanismo estrutural de controle. Ela argumenta que a sociedade condiciona a mulher ao papel eterno de cuidadora, uma função que a consome a ponto de neutralizar sua capacidade de luta e lazer. Para Guery, reconhecer que esse esgotamento é uma engrenagem do sistema é o primeiro passo para rejeitar a pressão e buscar formas de trabalho que não adoeçam os corpos femininos na Rede Federal.
A palestrante enfatizou que a conquista de direitos, embora essencial, é insuficiente se esses mecanismos não forem conhecidos e efetivados no cotidiano das servidoras. Ela exemplificou que uma mulher sozinha é vulnerável, mas o acesso à informação e o apoio coletivo a tornam potente para exigir o cumprimento das políticas institucionais. Guery defendeu ainda que o sindicato deve ser, primordialmente, um espaço de letramento político e jurídico, garantindo que cada trabalhadora saiba o caminho para transformar o direito no papel em realidade prática.
Por fim, Guery faz um apelo à autocrítica dentro do movimento sindical, questionando até que ponto as mulheres estão dispostas a ouvir e acolher umas às outras sem julgamentos que reproduzam ambientes institucionais doentes. Ela destacou que muitas servidoras ainda não enxergam o sindicato como um território de pertencimento, e que a mudança dessa percepção passa pela solidariedade ativa e pelo reconhecimento de todas as mulheres, desde as dirigentes até aquelas que realizam o trabalho invisibilizado da limpeza, por exemplo. Para ela, o fortalecimento da luta sindical das mulheres depende da capacidade de olhar para a companheira ao lado e compreender sua jornada.
Helena Rocha iniciou sua fala reafirmando seu lugar como mulher preta que precisou se reconquistar diante de uma sociedade que tenta rotulá-la pejorativamente. Ela aprofundou a ideia do teto de concreto explicando que, para mulheres como ela, as barreiras não são invisíveis ou de “vidro”, mas sólidas e brutais. Helena relatou que sua trajetória é marcada pela necessidade de trabalhar o triplo para validar seu direito de estar ali, enfrentando sequelas físicas e emocionais de um sistema que tenta enquadrá-la em uma “normalidade” que nunca foi desenhada para ela.
Dentre os pontos mais fortes, e revoltantes, da fala de Helena esteve o detalhamento do machismo e do etarismo que enfrentou: “feche o decote”, “aumente o tamanho do vestido”, “volte para seu ex-marido”, comentários de colegas para que ela fosse “votável” na disputa do cargo de diretora geral. Ela denunciou ainda o rótulo de raivosa como uma ferramenta para deslegitimar a voz das mulheres lutadoras e comentou o paradoxo do etarismo: para a instituição, a mulher jovem é inexperiente e a mais velha já passou do ponto, criando um vácuo onde o sucesso feminino é sempre sabotado.
Finalizando, Helena trouxe a reflexão dolorosa sobre a falta de reconhecimento e o apagamento de lideranças femininas, citando a professora Rita Gil. Ela mencionou que ao procurar por Rita nos arquivos e bibliotecas da instituição encontrou um vazio, o que para ela é um silêncio que reflete a falta de políticas de cuidado e de memória para as mulheres na Rede Federal. Para combater esse esquecimento, ela citou o símbolo do pássaro Sankofa para exaltar a sabedoria de olhar para trás e honrar quem veio antes para prospectar um futuro onde as filhas e as netas não precisem adoecer para existir.
Silvana Pineda trouxe para o evento uma perspectiva essencial ao inserir o tempo de envelhecer como um eixo central da vida da mulher trabalhadora, diferenciando-o do conceito restrito de aposentadoria. Ela argumentou que, sob a lógica capitalista, o corpo feminino é apropriado como reprodutor da força de trabalho, o que torna o envelhecimento com qualidade de vida um ato de resistência política. Silvana alertou que a luta por um envelhecimento digno deve ser de todas, especialmente diante da perda de paridade e integralidade que atinge as servidoras mais novas, defendendo que o sindicato trate o tema como uma pauta de urgência.
Ao tratar das políticas institucionais, a palestrante apresentou a desafiadora realidade das instituições de ensino vinculadas ao Ministério da Defesa (MD), que hoje servem de modelo para a expansão da militarização do ensino no Brasil. Silvana descreveu esses espaços como territórios de silenciamento, onde o debate de gênero é proibido e as mulheres enfrentam mecanismos de controle que vão desde o policiamento do vestuário até a invisibilização do assédio e do racismo. Para ela, acabar com a militarização é fundamental para garantir que as servidoras dessas instituições possam atuar com liberdade e sem o peso, por exemplo, da culpabilização institucional.
Por fim, Silvana conectou a vulnerabilidade das mulheres às crises climáticas e sociais, destacando que meninas e mulheres são as mais atingidas por eventos ambientais extremos devido ao papel histórico de cuidadoras e à falta de infraestrutura. Ela mencionou o dado de 11 milhões de mães solo no país e a crescente realidade de idosas que cuidam de idosos, reforçando que a precarização da vida atinge seu ápice na velhice sem suporte do Estado. Como encaminhamento prático, ela convocou a categoria a intensificar a luta pelo PL nº 5010/2024 e propôs que a coordenação de políticas para mulheres do SINASEFE incorpore definitivamente o envelhecimento como uma categoria de debate, luta política e interseccional.
Após as palestras foram feitas 36 intervenções das participantes, sendo várias delas de mulheres que participaram pela primeira vez de um evento nacional do sindicato, expressando agradecimentos e preciosas contribuições.
Mesa 4 – Nem precarizadas, nem exaustas: jornada, condições de trabalho e aposentadoria das mulheres na Rede Federal“
A última mesa de palestras e debates do 4º Encontro Nacional de Mulheres do SINASEFE (ENMS) teve como pauta “Nem precarizadas, nem exaustas: jornada, condições de trabalho e aposentadoria das mulheres na Rede Federal”, com mediação de Luciana Penha (Sinasefe IFPA, CTRB e Ciaba).
Márcia Farias (docente do IF Sertão Pernambucano) trazendo a poesia de Dedé Monteiro, questionou o “relógio do patrão” e defendeu o direito à vida, à terra e à contemplação para além da produtividade sistêmica. Roberta Dantas (advogada do Sinasefe IFPA, CTRB e Ciaba) denunciou a violência institucional e as perseguições em processos administrativos, destacando a denúncia e a judicialização como caminhos importantes de defesa. Priscila Ferrari (TAE do IFMT) desconstruiu o mito de que a exaustão é falta de organização pessoal, mostrando que a sobrecarga feminina é uma imposição estrutural do capital.
Márcia Farias (docente do IF Sertão Pernambucano) utilizou a potente poesia de Dedé Monteiro para denunciar como a estrutura institucional manipula o tempo das trabalhadoras, agindo com uma “agilidade seletiva”: rápida para cobrar produtividade e lenta para garantir direitos. Ela conectou sua origem como trabalhadora rural à realidade das servidoras concursadas e terceirizadas, criticando as sucessivas reformas que corroeram a integralidade e a paridade. Para Márcia, o “relógio do patrão” é um mecanismo de controle que empurra a servidora para um esgotamento planejado, visando apenas o lucro do sistema e a transferência para regimes previdenciários menos protetivos.
A palestrante trouxe uma reflexão contundente sobre a desumanização no trabalho, afirmando que o sistema capitalista só valida a existência da mulher enquanto ela é capaz de produzir. Márcia expressou sua agonia diante de uma estrutura que descarta quem adoece ou envelhece, sugerindo que, na lógica do capital, quem não serve mais para o “eito” institucional perde o direito à dignidade. Ela questionou se a finalidade da vida deve ser restrita ao serviço ao sistema, reivindicando que as servidoras não podem aceitar uma realidade onde “precisam morrer” socialmente quando deixam de ser produtivas.
Por fim, Márcia destacou a urgência de as mulheres recuperarem sua conexão com o essencial: o ato de respirar, beber água com calma e botar o pé na terra. Ela denunciou como a rotina exaustiva da Rede Federal atropela as necessidades básicas da vida, levando as mulheres a um processo de envelhecimento adoecido e desconectado da natureza. Para Márcia, a luta sindical e feminista deve ser, fundamentalmente, uma luta pelo direito à contemplação e à vida para além do trabalho, garantindo que a jornada não seja apenas um percurso de exaustão, mas de presença e saúde.
O relógio do patrão
(Dedé Monteiro, Tabira, 1978)
Hoje em dia está d’um jeito
A falta de consciência,
Que até a própria inocência
Padece o seu negro efeito.
Podia passar um eito
De horas nesta questão,
Mas, pra não fazer sermão,
Que aqui não se está num templo,
Vou só citar um exemplo
Do relógio do patrão.Esse objeto que eu zono,
Ora tem sono ora esperta,
Mas se endoidece, na certa,
É pra dar certo pro dono.
Quando ele esperta ou tem sono,
Nunca é com boa intenção.
E quando os ponteiros são
Ladrões na base do dedo,
Aí é que eu tenho medo
Do relógio do patrão.O mundo inda está cinzento,
A noite inda é cor de breu,
O sol inda não nasceu,
Não há nenhum movimento.
Mas o patrão barulhento,
Que é sempre quem tem razão,
Já sai de campa na mão,
Tocando por todo canto,
Porque já são cinco e tanto
No relógio do patrão.Ouvindo o sino batendo,
O trabalhador, coitado,
Abre o olho atordoado,
Nem sabe o que está fazendo.
Pula da cama correndo
Pra mesa de refeição,
Toma o café, come o pão,
Com a maior rapidez,
Porque já passa das seis
No relógio do patrão.De casa pro pé da serra,
Vai ele, em toda carreira,
Passar a manhã inteira
Rasgando o bucho da terra.
E quando a manhã se encerra,
Que só se pensa em feijão,
E o sol parece um vulcão,
Soltando setas de bronze,
Ainda não são nem onze
No relógio do patrão.Quando o almoço é servido,
Já passa do meio dia.
Além da comida fria,
A hora não tem sentido.
Depois que se tem comido,
Não se faz nem digestão,
Porque, nessa ocasião,
O capataz se aperreia:
Meu Deus, já é uma e meia
No relógio do patrão.Aí, lá vai novamente,
Na hora que o sol mais arde,
Passar o resto da tarde
Trabalhando a terra quente.
Se senta, alguém diz: não sente,
Que o dia não findou, não.
As sombras da noite vão
Na tarde passando um trinco,
Dá seis, mas não bate cinco
No relógio do patrão.Quando ele sai do roçado,
Já vê São Jorge, de esporas,
Correndo atrás das seis horas
Que a noite tem carregado.
E o infeliz desgraçado
Nem vê tanta exploração.
Um é bobo, outro é ladrão,
Mas o que passa por bobo
Morre e não descobre o roubo
Do relógio do patrão.
Roberta Dantas relatou o caso emblemático de uma servidora que enfrentou um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) por suposta desídia, mas que, na realidade, sofria uma perseguição ligada à sua aparência. A advogada denunciou o uso da expressão “olha o naipe dela” por parte da gestão para justificar a punição, referindo-se pejorativamente às tatuagens, ao estilo de vestir e à personalidade da trabalhadora. Para Roberta, esse caso ilustra a quebra do princípio da impessoalidade no serviço público, onde o julgamento moral e a exposição pública são utilizados para deslegitimar e adoecer mulheres que não se curvam a padrões estéticos ou comportamentais conservadores.
Outro ponto central da fala foi a contradição vivida por professoras e pesquisadoras altamente produtivas que, ao adoecerem, são descartadas pela instituição. Roberta detalhou o caso de uma docente dedicada que, após desenvolver uma fobia grave, foi removida de seu local de trabalho e empurrada para um processo de aposentadoria compulsória sob a alegação de que sua saúde era “incompatível” com a produtividade exigida. Ela criticou a ausência de estruturas de perícia e acompanhamento médico adequado nos campi, o que resulta em uma jornada de trabalho não reconhecida e na punição daquelas que dedicam a vida à pesquisa e ao ensino.
Por fim, Roberta discutiu a dicotomia do Direito: embora existam leis que protejam as trabalhadoras, a efetividade dessas normas é constantemente barrada pelo machismo estrutural e pelas relações de poder dentro das instituições federais. Ela argumentou que a injustiça muitas vezes se sobrepõe ao texto da lei porque a gestão prefere ignorar recursos e evidências para manter sua autoridade. Diante desse cenário, a palestrante reforçou que a resistência feminina exige uma postura ativa baseada no tripé da denúncia, da judicialização estratégica e do debate público, transformando casos individuais em pautas políticas coletivas para garantir que nenhum direito seja “roubado” pelo silêncio.
Priscila Ferrari iniciou sua fala desconstruindo o mito de que a exaustão feminina é fruto de uma falha de organização ou falta de gestão do tempo. Como psicóloga, ela alertou que o cansaço recorrente sentido pelas mulheres, inclusive na Rede Federal é, na verdade, um projeto estrutural e planejado para manter a engrenagem capitalista funcionando. Ela criticou a lógica de que “precisamos apenas de férias ou de nos organizar melhor” para dar conta de tudo, argumentando que essa sensação de insuficiência é internalizada para que não percebamos que o problema está nas condições de trabalho e não na nossa competência individual.
Citando o manifesto “Feminismo para os 99%”, Priscila explicou que a vida das mulheres é marcada por uma dupla exploração: a produtiva (no cargo público, na pesquisa, na extensão) e a reprodutiva (o cuidado com a casa, os filhos e a base emocional da família). Ela destacou que o sistema capitalista e patriarcal é dependente desse trabalho invisível e naturalizado como feminino para se sustentar. Ela reforçou que estar precarizada e exausta não é uma escolha pessoal, mas uma imposição de uma estrutura que exige produtividade de excelência sem oferecer as bases materiais e emocionais para isso.
Priscila finalizou com um alerta contundente sobre a indústria do autocuidado e a medicalização da exaustão. Ela argumentou que soluções individuais, como academias ou pílulas “milagrosas” para ansiedade, muitas vezes servem apenas para “consertar” a mulher e devolvê-la ao mesmo ambiente adoecedor. Para a palestrante, a pergunta fundamental não deve ser “o que há de errado com essa mulher?”, mas sim “quais condições de trabalho estão produzindo esse sofrimento nela?”. “O caminho para não estarmos nem precarizadas, nem exaustas, passa obrigatoriamente pela transformação coletiva das condições de trabalho e pelo fim da lógica de metas e vigilância institucional que nos esgotam”, ressaltou.
Ela também usou poesias em sua intervenção:
Marisa
Espera, filha, que a mãe já volta, eu vou ver se soltam a gente antes das dez.
Aguenta, filha, se a dor veio agora, amanhã tem folga e vamos pro hospital.
Perdoa, filha, se eu não vi teus cortes, que a falta de sorte não deixa eu parar.
Não briga, filha, se eu não compro fruta, pois é só labuta, o dinheiro não dá.
Entende, filha, se tá ruim na escola e a mãe não dá bola, não pode ajudar.
Não chora, filha, que a mãe vai pra luta pra essa vida bruta um dia melhorar.
Segunda
(Golondrina Ferreira)
As máquinas, mortas. Nós, vivos. Logo se inverte a coisa.
A fábrica tem fome, passou um dia inteiro de barriga vazia.
Então abre suas bocas de catraca e nos seus dentes vamos passando um a um.
Dá o sinal: nos mastiga
e joga o bagaço fora no fim da jornada.
Elenira Vilela iniciou sua fala reafirmando que sua própria existência é um ato político, desde o nome, uma homenagem à líder estudantil Helena Resende, assassinada pela ditadura, até a defesa intransigente da diversidade de gênero, criticando práticas como o “chá de revelação” e defendendo o respeito às crianças trans. Ela transpôs essa ética para dentro do SINASEFE, celebrando a decisão política de ter mulheres na coordenação geral como uma ruptura necessária com o passado.
Utilizando dados econômicos e referências históricas, como o Congresso Mundial de Mulheres de 1963 e a vida das mulheres nas repúblicas socialistas, Elenira denunciou o caráter estruturante da misoginia no capitalismo. Ela destacou que o sistema “rouba” anualmente cerca de 10,8 trilhões de dólares das mulheres através do trabalho não remunerado (produtivo e reprodutivo), que garante a manutenção da única mercadoria que o capital precisa: a força de trabalho. Para a palestrante, a exploração das mulheres é a base que sustenta bilionários, e essa engrenagem só pode ser quebrada com a organização da classe trabalhadora como um todo.
Elenira defendeu que a emancipação feminina não será resolvida no convencimento individual dos homens para que lavem a louça, por exemplo, e sim na construção de condições objetivas e equipamentos sociais, como lavanderias e restaurantes públicos, que retirem o peso do cuidado das costas das mulheres. Citando a obra “Por que as mulheres têm sexo melhor no socialismo”, ela argumentou que a autonomia real depende de um Estado que garanta estrutura para idosos e crianças. Ela concluiu reforçando as mulheres organizadas e conscientes de seu papel na classe trabalhadora têm o poder de derrubar o sistema e construir um futuro de liberdade.
Ao final das palestras, mais de 30 mulheres apresentaram suas contribuições ao debate da temática, apresentando seus relatos, percepções e sugestões dos caminhos a trilharem coletivamente.
O encontro segue até este domingo (12/04), no Sindicato dos Bancários, em Belém (PA), reunindo mulheres de todo o país em um espaço de organização, resistência e construção coletiva.
O SINASEFE Natal marca presença na atividade com as servidoras Erivanda Tavares, Izabel Almeida, Monique Oliveira, Socorro Silva, Sônia Moura, Fátima Oliveira, além da funcionária do sindicato Edivânia Santos, fortalecendo a participação da seção sindical nos debates nacionais.
SINASEFE na luta!
Com informações do SINASEFE Nacional




