Manifestação em Natal vira aula pública, gratuita e de qualidade

Estudantes, professores, movimentos sociais e sindicais, além de outras entidades ligadas à educação promoveram nesta quarta-feira (15), manifestações contra o corte no orçamento destinado ao ensino, anunciado pelo governo Bolsonaro e que atinge instituições de todo o país.

No Rio Grande do Norte, os atos iniciaram ainda pela manhã em diversos municípios potiguares. À tarde, o ex-candidato à Presidência da República e coordenador do MTST Guilherme Boulos participou de uma Aula Pública,  no ginásio do campus Central do IFRN, em defesa da educação e contra a reforma da previdência.

“Por mais que tenha diferença entre quem está na oposição à Bolsonaro, quem é de esquerda e quem é progressista, são muito menores do que as diferenças que temos com eles. Estamos em defesa da educação pública, dos nossos direitos, da autonomia, das universidades, dos institutos federais. Em defesa da democracia no nosso país”, defendeu.

Depois da aula, Boulos se juntou aos manifestantes que estavam concentrados no cruzamento das avenidas Salgado Filho e Bernardo Vieira e deram início ao ato em direção ao Natal Shopping. Segundo os organizadores da manifestação, o ato reuniu aproximadamente 70 mil pessoas.

Para Izabel Nascimento, que é vice-diretora do Instituto Ágora e coordenadora do curso de Letras do DELEM da UFRN, a manifestação é necessária no cenário de cortes. De acordo com a servidora, que também aderiu à greve geral em protesto ao contingenciamento dos recursos, o departamento de línguas em que atua já sentiu os impactos em meio aos bloqueios impostos pelo Ministério da Educação.

“O idioma sem fronteiras vivia com subsídio do MEC e da Secretaria de Relações Internacionais da UFRN. Agora, o subsídio do MEC foi cortado para zero. Não foi contigenciamento, não foi nenhuma retaliação. Simplesmente zerou e teremos que sobreviver com o que a SRI vai dar, que é o que a UFRN tem. E como a UFRN terá cortado 30% de seu orçamento, é muito claro pra gente que num espaço de tempo muito curto o programa acabe para todos os idiomas”, lamentou.

Além do ISF, a vice-coordenadora conta que o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência também está ameaçado. “As bolsas ociosas do Pibid já foram bloqueadas, o portal já está bloqueado e a gente não sabe se mês que vem tem bolsa ou não para os meninos. A UFRN tem mais de 500 bolsistas do PIBID”, conta.

Outra parcela que também poderá sofrer com os cortes são os funcionários terceirizados. “Precisamos pensar nas famílias por trás dos terceirizados. Além disso, eles perderão poder de compra, que vai afetar o mercado. Não é só a UFRN que perde, é todo o estado.”

Mestranda na área de Psicologia na UFRN, Ingrid Lavor é uma das milhares de estudantes que sentem suas pesquisas ameaçadas com os bloqueios. Apesar de estar na fase final do mestrado, a psicóloga ainda pretende fazer doutorado, além de defender o acesso à educação pública às camadas mais pobres.

“Milhões de brasileiros jovens e periféricos, como eu, sonham um dia em serem profissionais, trabalhadores, pesquisadores e contribuírem para a construção e movimento da sociedade. Com esses cortes, a gente morre enquanto sociedade e morrem também os nosso sonhos. Estou aqui na luta, diante de tudo isso, não só por mim, mas por um coletivo”, comentou.

Já Ingrid Silva, estudante de pedagogia na UFRN, conta que há duas semanas os estudantes do curso se organizam para unificar alunos e trabalhadores a favor da educação e contra a aprovação da reforma da previdência.

“Não existe educação pública de qualidade para todos quando se corta 30% dos seus recursos. Estamos na rua lutando para que o direito de todos seja alcançado e ele se perpetue durante anos, afinal a universidade é um patrimônio público. Também não adianta chantagear as pessoas dizendo que se não aprovar previdência não vai tirar o desbloqueio. Nós não aceitamos previdência e não aceitamos esse bloqueio”, decreta.

Paulo Jales, que é coordenador geral do DCE, também critica a chantagem feita pelo governo de só reverter a situação dos cortes em caso de aprovação da reforma da previdência. “A gente sabe que o governo ataca a juventude e os estudantes pelo seu potencial de mobilização. Nós não saíremos das ruas até que esses cortes sejam revertidos e a reforma da previdência seja suspensa.”

No ato, pais de estudantes, alunos de escolas particulares, ex-alunos do IFRN, diversos profissionais já formados e membros do Movimento de Trabalhadores também manifestaram em defesa.

“Nossos assentamentos e acampamentos são contra o corte e em defesa das nossas escolas no campo, que é uma das frentes de ataque do governo Bolsonaro”, destacou Jailma Lopes, que integra um grupo de estudantes do MST.

Profissional na área de comunicação, Sheila de Azevedo diz que Bolsonaro não governa para o povo. “Não se corta direitos básicos como a educação”, critica. A jornalista esteve no protesto com a professora da UFRN Rosanne Araújo, que também é contrária aos cortes. “A universidade produz o pensamento, produz a liberdade, produz discernimento, e é isso que o governo não quer.”

Sobre as manifestações, o presidente Jair Bolsonaro, que está em Dallas, no Texas, disse que os atos são feitos por “idiotas úteis.” Segundo ele, os estudantes que estão nas ruas “não sabem nem a forma da água.” Bolsonaro foi receber uma homenagem como personalidade do ano da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos.

Uma greve geral está prevista para o dia 14 de junho em todo o Brasil. A paralisação foi convocada pelas Centrais Sindicais, de maneira unificada. Para Boulos, as manifestações contra os bloqueios e contra a reforma caso tenha continuidade, podem vir a ser uma das maiores nos últimos anos, além de impactar o Congresso Nacional.

Há seis anos, também em 15 de maio, aconteceu na capital potiguar o primeiro protesto que desencadeou uma série de manifestações contra o aumento da passagem de ônibus, em 2013.

Comunidade acadêmica realizou ato em defesa da UFRN

Pela manhã, a UFRN promoveu um ato Político-cultural em defesa das universidades e contra a Reforma da Previdência. Na manifestação, a deputada estadual Isolda Dantas  (PT) criticou o governo Bolsonaro e o bloqueio nos recursos das instituições federais.

“Esse governo quer destruir o que temos de melhor. Nossas escolas técnicas, nossos institutos federais e nossas universidades.”

Marielle, presente!

No IFRN Central, a primeira Aula Pública do dia trouxe à tona o debate sobre a Reforma da Previdência. Servidor do instituto e um dos integrantes da mesa principal, Victor Varela criticou a divisão de classes e a má distribuição de renda no mundo, em que, segundo ele, 1% da população mundial detém mais recursos de que 50% da população total. Victor também destacou a importância de fortalecimento das lutas no contexto de nova reforma e bloqueio de recursos na educação.

“Há caminhos e espaços pra luta. Além de sermos milhões, temos poder de decisão, de trabalho e de mobilização.”

A ex-vereadora e defensora dos direitos humanos Marielle Franco, que foi brutalmente assassinada no Rio de Janeiro no ano passado, foi lembrada em discursos durante os atos.

Para Boulos, a socióloga foi vítima de um assassinato político por lutar em favor das minorias e contra as milícias.

“Marielle morreu defendendo aquilo que acreditava, por ter a ousadia de enfrentar os poderes milicianos do Rio de Janeiro. E se não se descobre quem mandou matar Marielle, a mensagem que se passa pra sociedade é de que se pode matar alguém porque se descorda das pessoas. Por isso é tão simbólico defender justiça por Marielle Franco.”

Victor Varela, servidor do IFRN, também citou a ativista política quando defendeu a necessidade de articulação da sociedade com as frentes sindicais para que existam as manifestações na rua.

“Marielle dizia que as rosas da resistência nascem no asfalto. Precisamos ir pras ruas.”

*Texto cedido pelo Portal de Notícias Saiba Mais 

2019-05-16T17:12:42+00:00maio 16th, 2019|Agenda de Lutas, DESTAQUES, Noticias, SINASEFE Mobiliza|Comentários desativados em Manifestação em Natal vira aula pública, gratuita e de qualidade