Adoecimentos, violências e interseccionalidade marcaram os debates desta sexta-feira (10/04), durante o segundo dia do 4º Encontro Nacional de Mulheres do SINASEFE. Com reflexões potentes e relatos que evidenciam desafios estruturais vividos por mulheres na Rede Federal, a programação reforçou a urgência de enfrentar desigualdades e construir saídas coletivas.
O dia teve início com a mesa “Paridade, poder e interseccionalidade: pluralidade de mulheres na disputa dos espaços de decisão”, que trouxe ao centro do debate a importância da ocupação de espaços de poder por mulheres diversas e a necessidade de políticas efetivas que garantam representatividade real, para além do discurso formal de inclusão.
No turno da tarde, a mesa “Entre o silenciamento e o adoecimento: violência institucional, saúde mental e a construção de respostas coletivas na Rede Federal” aprofundou discussões sobre os impactos das violências cotidianas nos ambientes de trabalho. Foram compartilhadas experiências que evidenciam o quanto o assédio, o machismo estrutural e a sobrecarga têm afetado a saúde mental das trabalhadoras, apontando para a urgência de estratégias coletivas de acolhimento, enfrentamento e transformação institucional.
A diretora de Aposentados do SINASEFE Natal Sônia Moura e a servidora Socorro Silva participaram das intervenções das mesas, contribuíram com o debate e apresentaram proposições importantes para o encontro. Confira o resumo do segundo dia da atividade:
Mesa 1 – Paridade, poder e interseccionalidade: pluralidade de mulheres na disputa dos espaços de decisão
A primeira mesa de debates do 4º Encontro Nacional de Mulheres do SINASEFE (ENMS) foi realizada na manhã do segundo dia do evento (10/04). O tema em debate foi “Paridade, poder e interseccionalidade: pluralidade de mulheres na disputa dos espaços de decisão”, com as palestras de Andréa Moraes, Wellingta Macêdo (Well), Teresa Bahia e Vivi Reis, leia mais sobre as convidadas aqui. A mediação desta primeira mesa de debates foi feita por Fernanda Rosá.
Andréa Moraes (secretária de políticas étnico-raciais do SINASEFE) destacou a interseccionalidade como ferramenta para desconstruir a ideia de ‘mulher universal’ e movimentar a estrutura da sociedade a partir da base. Ela iniciou sua intervenção desconstruindo a ideia de uma “mulher universal”, enfatizando que, no Brasil, a luta das mulheres é indissociável da questão racial e da luta de classes. Ao destacar que falar da mulher negra é falar de interseccionalidade, a palestrante pontuou que o feminismo tradicional muitas vezes ignorou as demandas daquelas que compõem a base da pirâmide social. Ela ressaltou que as mulheres negras não herdam privilégios, mas constroem trajetórias de resistência, levando até nove gerações para que uma família negra atinja a média salarial da sociedade.
A importância da análise apurada e da contextualização de dados foi ressaltada por Andréa, que trouxe uma provocação crítica sobre a representatividade institucional. Ela alertou que o aumento do número de mulheres eleitas em partidos de direita e centro-direita não se traduz automaticamente em avanços para as mulheres trabalhadoras. Segundo ela, o patriarcado é uma estrutura que pode ser reproduzida inclusive por mulheres, caso não haja um desenvolvimento profundo da consciência política e social.
Finalizando sua intervenção, Andréa defendeu que o verdadeiro enfrentamento ao sistema exige uma força de poder conjunta e popular, rejeitando a lógica do empoderamento individual como uma armadilha do capitalismo que gera concorrência em vez de emancipação. Ela concluiu reforçando a importância histórica do encontro do SINASEFE como um espaço potente para a construção de políticas voltadas para as mulheres da base. Para Andréa, a transformação real só acontece quando se movimenta a estrutura a partir de quem mais sofre com as opressões de gênero, raça e classe.
Wellingta Macêdo, Well (militante do Movimento de Mulheres em Luta) trouxe uma perspectiva de classe muito nítida e combativa, elevando o tom sobre a urgência da sobrevivência das mulheres trabalhadoras e o perigo da representatividade puramente simbólica. Ela destacou um diagnóstico alarmante sobre a conjuntura atual para as mulheres trabalhadoras, que é de morte e adoecimento, reflexo de uma sociedade capitalista em decadência. Ela denunciou a epidemia de violência e feminicídio, pontuando que as mulheres pobres e negras são as principais vítimas desse cenário. Well também trouxe o debate para a realidade do trabalho, citando a luta contra a escala 6×1 e a persistência de condições análogas à escravidão, reforçando que, no século 21, a estrutura social brasileira ainda se sustenta sobre a exploração intensiva dos corpos negros e indígenas.
A palestrante ressaltou a reflexão sobre o real significado de ocupar espaços de poder. Para ela, a paridade e a representatividade não podem ser apenas enfeites ou cotas para cumprir protocolos institucionais, mas devem servir a um projeto coletivo de classe. Well alertou que o fato de uma mulher chegar a um cargo de gestão não garante, por si só, uma prática emancipatória, já que muitas vezes o patriarcado e o assédio, inclusive entre mulheres, são reproduzidos dentro das instituições. Ela enfatizou que o poder, se não for exercido em nome daquelas que mais sofrem com a exploração de gênero, raça e classe, acaba apenas perpetuando os mecanismos de opressão do Estado.
Ao finalizar, Well defendeu a independência de classe como princípio fundamental para a organização das mulheres. Ela ressaltou que, embora seja necessário derrotar a extrema-direita, não se pode depositar ilusões cegas em governos, pois o Estado muitas vezes utiliza a pauta da diversidade para mascarar a manutenção de projetos exploratórios. Sua fala encerrou com uma convocação à unidade e à organização autônoma das trabalhadoras, reafirmando que a luta deve ser por mudanças concretas que garantam uma sociedade sem exploração, onde a paridade seja uma realidade política e não apenas uma concessão oficial.
Teresa Bahia (coordenadora geral do Sinasefe IFBA & CMS) trouxe seu olhar sobre os desafios cotidianos da mulher mãe trabalhadora, focando na dificuldade de ocupar os espaços sindicais e na urgência da representatividade institucional qualificada. Ela destacou a importância do Encontro Nacional de Mulheres como um espaço seguro, algo raro para muitas trabalhadoras. Ela trouxe um questionamento profundo sobre as barreiras que impedem a participação feminina no cotidiano sindical: embora a categoria da educação seja majoritariamente composta por mulheres com alta qualificação acadêmica, a liderança ainda é um espaço de difícil acesso. Teresa apontou que o machismo, o racismo e a sobrecarga do trabalho doméstico e do cuidado são os fatores que “expulsam” as mulheres da construção política diária, tornando o ato de pegar o microfone ou se candidatar a uma direção um desafio constante.
A palestrante também abordou a conciliação dolorosa entre a maternidade e a militância, relatando como o julgamento social e a falta de apoio institucional dificultam a presença das mães na luta. Citando a ativista Audre Lorde, Teresa reforçou que “não há hierarquia de opressões” e que o combate ao machismo deve ser um compromisso de todos, independentemente do gênero ou raça. Ela denunciou que, mesmo em instituições de ensino de que se orgulham, como os Institutos Federais, a presença feminina em cargos de alta gestão (como no Conif) ainda é insuficiente e muitas vezes marcada por situações de assédio que precisam ser combatidas.
Ao finalizar, Teresa conectou a luta sindical com a política institucional, alertando para a baixa representatividade feminina no Congresso Nacional, menos de 20% das cadeiras. Ela defendeu que é preciso sair do Encontro de Mulheres com a consciência de que eleger mulheres comprometidas, como Erika Hilton (PSOL-SP), é fundamental para derrotar o fascismo e garantir que as pautas da diversidade sexual e de gênero avancem. Sua fala foi um chamado para que as mulheres fortaleçam os núcleos de gênero e diversidade em suas bases, ocupando espaços institucionalmente constituídos para garantir que a paridade saia do papel e se transforme em direitos concretos.
Vivi Reis (vereadora do PSOL em Belém) encerrou as palestras da mesa conectando o debate diretamente às ruas e ao território amazônico, trazendo denúncias graves sobre a invisibilização de pautas específicas e a urgência de um projeto antifascista. Ela destacou que a paridade de gênero na gestão pública não deve ser apenas um conceito, mas uma obrigação legal, citando seu projeto de lei que busca garantir essa equidade e a presença de mulheres negras em cargos de decisão. Ela enfatizou que não basta ser mulher, é preciso estar nos espaços de poder com um programa político que combata o machismo dentro dos próprios sindicatos, partidos e ambientes de trabalho. Vivi denunciou a violência política de gênero que tenta fazer as mulheres desistirem desses espaços e reafirmou que a ocupação das instituições é uma ferramenta necessária para garantir que as decisões não sejam tomadas sem a participação de quem sente na pele as opressões.
Um dos destaques de sua intervenção foi a denúncia de uma tentativa de apagamento de pautas específicas na Câmara Municipal de Belém. Vivi relatou que, ao cobrar prioridade para projetos sobre mulheres, percebeu que suas propostas voltadas para mulheres lésbicas e bissexuais haviam sido excluídas da lista. Ela rebateu essa prática, afirmando que não aceitará a fragmentação da luta feminista e que não tem como escolher qual a “opressão do dia”. Para a palestrante, a luta coletiva deve ser abrangente, combatendo desde os retrocessos nos direitos reprodutivos e ao aborto até o avanço da extrema-direita que tenta controlar os corpos femininos.
Ao concluir, Vivi ressaltou a luta das mulheres pela a defesa do território e por direitos das trabalhadoras. Ela fez ainda uma crítica severa ao arcabouço fiscal e aos cortes no orçamento da educação, que atingem diretamente a base das mulheres trabalhadoras. Ela lembrou a resistência recente das mulheres indígenas que derrubaram decretos federais e defendeu uma visão de Amazônia que não seja apenas exportadora de commodities para o agronegócio, mas um território de saber e preservação. Sua fala encerrou com uma convocação para a organização nas urnas e nas ruas, defendendo um feminismo que seja radicalmente antifascista, antirracista e em defesa da vida de todas as mulheres: lésbicas, travestis, mães e periféricas.
Após as palestras, ao longo de 30 falas, as participantes comentaram o tema da primeira mesa do evento, passando por destaques como a paridade, os desafios que as mulheres enfrentam cotidianamente, as presenças e as ausências nos espaço de poder, a importância de eleger mulheres combativas, o combate ao etarismo, a importância da coletividade e das lutas com pautas urgentes e concretas.
Regina Célia solicitou uma fala antes de sair do Encontro e registrou seu profundo agradecimento pelo apoio do SINASEFE no processo doloroso da morte de seu companheiro, Flávio Barbosa. Geógrafo e tecnólogo ambientalista, Flávio trabalhou como servidor público federal por 29 anos, além de atuar também em nível estadual. Ele teve uma militância histórica no SINASEFE, sendo uma grande referência política entre os sindicalizados – em especial, aqueles que atuam nas escolas ligadas ao Ministério da Defesa.
Mesa 2 – Entre o silenciamento e o adoecimento: violência institucional, saúde mental e a construção de respostas coletivas na Rede Federal
Retomada dos trabalhos na tarde desta sexta-feira (10/04) teve um momento de saudação à memória de Rejane Nogueira, trabalhadora do Sindscope-RJ e uma grande referência da comunicação sindical. As mulheres da delegação do Sindscope-RJ se uniram e entoaram: Rejane, presente! Hoje e sempre!
A segunda mesa desta sexta-feira (10/04) no 4º Encontro de Mulheres do SINASEFE pautou“Entre o silenciamento e o adoecimento: violência institucional, saúde mental e a construção de respostas coletivas na Rede Federal“. Palestraram nesta atividade: Ana Patricia Fernandez (docente do IFPA), Geovana Gonzaga Borges (TAE da UFPE), Ana Quezia (TAE do IFBA) e Arielly Ribeiro (docente do IFAC), saiba mais sobre as palestrantes aqui.
Ana Patricia Fernandez tratou das raízes psicológicas e históricas do cansaço e do adoecimento das mulheres. Ela conectou teorias densas da psicologia com as situações mais comuns do dia a dia, como a culpa materna e a validação pelo olhar masculino. Ela iniciou sua intervenção questionando o auditório sobre o silenciamento, definindo-o não como algo imaginário, mas como um apagamento real que deixa marcas físicas e psíquicas nos corpos das mulheres. Ela explicou que vivemos sob o patriarcado, o sistema mais antigo de opressão, que nos molda como “o segundo sexo” e nos faz duvidar da própria sanidade através do gaslighting institucional. Ao resgatar figuras históricas como Olympe de Gouges e Mary Wollstonecraft, a palestrante demonstrou que a submissão feminina não é natural, mas uma construção histórica e cultural que nega às mulheres a condição de sujeitas plenos de direitos.
Em sua exposição Patrícia ressaltou a análise dos dispositivos que organizam a vida feminina: o dispositivo amoroso, que condiciona a mulher a ser validada apenas pelo olhar do outro (parceiro), e o dispositivo materno, que impõe o cuidar como um destino biológico. Ela mencionou o conceito de adaptação psíquica de Dee Graham, comparando certas dinâmicas de poder à Síndrome de Estocolmo, onde a vítima passa a admirar o opressor por pequenas concessões, como “ajudar em casa” ou “permitir” que ela trabalhe.
Para encerrar, a palestrante defendeu o letramento de gênero como o caminho para a cura e para a resistência política. Ela enfatizou que entender esses mecanismos permite que as mulheres nomeiem o que antes parecia normal, transformando a dor individual em consciência coletiva. Citando bell hooks, reforçou que a sororidade é um compromisso político e que a saída para o isolamento provocado pela depressão e pelo estresse está na construção de redes de apoio dentro das instituições. Sua fala terminou com um convite à ação: identificar em quem podemos nos apoiar e para quem precisamos olhar, fortalecendo as redes de cuidado como estratégia de sobrevivência no serviço público.
Geovanna Gonzaga Borges trouxe uma camada fundamental de denúncia sobre as violências específicas que corpos dissidentes enfrentam na Rede Federal. Ela uniu sua trajetória como Técnica-Administrativa em Educação com o ativismo, expondo as fissuras de um sistema que ainda opera sob lógicas de exclusão. Geovanna iniciou sua fala apresentando-se como uma travesti alagoana radicada em Pernambuco, com 13 anos de experiência como servidora pública (TAE). Ela trouxe uma provocação direta ao SINASEFE sobre a ausência ou o silenciamento de pessoas trans nos espaços de atuação sindical, questionando se as pessoas trans são realmente inexistentes ou se a estrutura atual impede que essas pessoas ocupem a linha de frente. Para a palestrante, a invisibilidade não é um acaso, mas um mecanismo do patriarcado que gera adoecimento profundo ao negar o direito à existência plena dentro das instituições de ensino.
Um ponto impactante de sua exposição foi o relato de violências institucionais e abordagens por seguranças e guarda municipal, que não reconheceram sua condição de servidora em seu próprio ambiente de trabalho. Geovanna denunciou como a burocracia dos atestados e os processos de acompanhamento laboral muitas vezes se tornam instrumentos de perseguição psicológica. Ela enfatizou que o planejamento de gestão, muitas vezes existente no papel desde 2010, falha na prática ao não garantir direitos básicos, como o uso do nome social ou o acesso seguro a banheiros, o que força as mulheres trans e travestis a criarem estratégias de sobrevivência exaustivas.
Ao concluir, Geovanna reforçou que as pautas da diversidade devem ser compreendidas como pautas da classe trabalhadora, sem fragmentações. Ela defendeu que o combate ao assédio e ao silenciamento exige uma renovação na organização sindical, com o fortalecimento de diretorias e políticas de acolhimento que olhem para as especificidades das identidades LGBTQIAPN+. Ela fez um chamado para que as mulheres lutem por uma Rede Federal que deixe de ser um espaço de “vigilância de corpos” e passe a ser um local de construção política onde a diversidade não seja apenas tolerada, mas um pilar da segurança e da saúde mental coletiva.
Ana Quezia ressaltou que a vulnerabilidade pode ser convertida em resistência e o acolhimento coletivo como única saída contra o adoecimento institucional e o estresse pós-traumático. Ela iniciou sua fala citando Carl Jung para lembrar que, acima de qualquer teoria ou cargo, o encontro entre duas pessoas deve ser, prioritariamente, um encontro entre almas humanas. Ela relatou sua trajetória no IFBA, iniciada em 2015, e o choque ao perceber a falta de representatividade negra e periférica nos espaços de poder. Ao levar a extensão para comunidades quilombolas e povos originários, Ana enfrentou uma forte resistência institucional. Sua atuação em defesa dos estudantes e a ocupação de espaços de decisão geraram represálias graves, culminando em ameaças e assédios de diversos tipos, inclusive assédio sexual, que transformaram seu ambiente de trabalho em um território de medo.
A palestrante detalhou as marcas físicas desse processo, descrevendo sintomas como crises respiratórias e problemas de fundo psicogênico, que a levaram ao diagnóstico de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). Ana compartilhou a dificuldade de conciliar sua identidade como psicóloga, que teoricamente detém o saber sobre o sofrimento psíquico, com a necessidade de reconhecer a própria fragilidade e se afastar para tratamento. Ela denunciou como a instituição adoece as servidoras e como a burocracia do afastamento é punitiva, gerando um isolamento que agrava o trauma e dificulta o retorno à rotina de quem foi vítima de violência institucional.
Ela concluiu com uma provocação contundente sobre a relação entre as mulheres dentro do sindicato e da Rede Federal. Ela criticou o julgamento entre pares, onde colegas muitas vezes condenam o afastamento ou a fala ferida de outra mulher no lugar de oferecer acolhimento. Citando a força das novas gerações e a urgência de uma rede de apoio real, ela convocou todas a pararem de repetir comportamentos patriarcais e a enfrentarem o machismo de frente, sem medo de ocupar espaços.
Arielly Ribeiro ressaltou a denúncia do silenciamento como estratégia de gestão e a defendeu a urgência de transformar políticas decorativas em respostas radicais contra o assédio e as desigualdades na carreiras. Arielly Ribeiro trouxe uma provocação contundente sobre a estrutura de poder nos Institutos Federais, diferenciando cargos decorativos de cargos deliberativos. Ela questionou por que, em uma rede onde as mulheres são maioria e detêm alta qualificação (doutorados e mestrados), a gestão máxima ainda é massivamente ocupada por homens que, muitas vezes, não possuem a mesma competência ou tempo de casa. A palestrante denunciou que o ambiente institucional reproduz a lógica do poder executivo federal, onde apenas uma fração mínima das mulheres acessa cargos de decisão real, mantendo as servidoras no chão da escola enquanto homens decidem os rumos da educação e resgatam o machismo estrutural em sala de aula.
A docente vinculou diretamente o adoecimento das servidoras à desigualdade na progressão de carreira e à sobrecarga do cuidado. Arielly destacou que, em 2024, muitas mulheres não conseguiram acelerar suas promoções por não darem conta das burocracias acadêmicas enquanto dividiam o tempo com o trabalho doméstico e a responsabilidade emocional pela mediação de conflitos nas instituições. Ela rebateu a ideia de que o silêncio ou o afastamento por saúde mental seja uma escolha individual ou timidez, definindo-os como sintomas de um sistema que penaliza a mulher que tenta conciliar a excelência profissional com as demandas invisíveis do cuidado, enquanto os colegas homens seguem sem esses entraves.
Arielly finalizou sua intervenção com um chamado por posicionamentos institucionais radicais. Ela criticou as políticas vazias: palestras e eventos de fachada que não se traduzem em punições efetivas para agressores ou em mudanças no planejamento de gestão. Defendeu a importância dos coletivos de mulheres para romper o isolamento e cobrar que as instituições parem de ser convenientes com o assédio. “O meu silêncio é o seu prato favorito. Até quando?”, questionou ela, reafirmando que a voz das mulheres trabalhadoras é o único caminho para interromper o ciclo de violência e invisibilização na Rede Federal.
Além das falas das convidadas, 30 mulheres também contribuíram com a temática de forma plural e diversa em suas intervenções. Elas ressaltaram as violências e pressões que sofrem, os adoecimentos recorrentes, o desafio de equilibrar estudos, vida pessoal e profissional, sob o peso do patriarcado. Dentre as falas das participantes, Márcia Farias (IF Sertão Pernambucano), recitou a seguinte poesia:
Poemas Presos – Viviane Mosé
A maioria das doenças que as pessoas têm são poemas presos
Abscessos, tumores, nódulos, pedras…
São palavras calcificadas, poemas sem vazão.
Mesmo cravos pretos, espinhas, cabelo encravado, prisão de ventre…
Poderiam um dia ter sido poema, mas não…
Pessoas adoecem da razão, de gostar de palavra presa.
Palavra boa é palavra líquida, escorrendo em estado de lágrima.
Lágrima é dor derretida, dor endurecida é tumor.
Lágrima é raiva derretida, raiva endurecida é tumor.
Lágrima é alegria derretida, alegria endurecida é tumor.
Lágrima é pessoa derretida, pessoa endurecida é tumor.
Tempo endurecido é tumor, tempo derretido é poema.
E você pode arrancar os poemas endurecidos do seu corpo
Com buchas vegetais, óleos medicinais, com a ponta dos dedos, com as unhas.
Você pode arrancar poema com alicate de cutícula, com pente, com uma agulha.
Você pode arrancar poema com pomada de basilicão, com massagem, hidratação.
Mas não use bisturi quase nunca,
Em caso de poemas difíceis use a dança.
A dança é uma forma de amolecer os poemas endurecidos do corpo.
Uma forma de soltá-los das dobras, dos dedos dos pés, das unhas.
São os poemas-corte, os poemas-peito, os poemas-olhos,
Os poemas-sexo, os poemas-cílio…
Atualmente, ando gostando dos pensamentos-chão.
Pensamento-chão é grama e nasce do pé,
É poema de pé no chão,
É poema de gente normal, de gente simples,
Gente de Espírito Santo.
Eu venho de Espírito Santo.
Eu sou do Espírito Santo, eu trago a Vitória do Espírito Santo.
Santo é um espírito capaz de operar o milagre sobre si mesmo.
Com o tema “Vivas, livres e plurais, do silêncio à voz: mulheres que educam, lutam e resistem”, o encontro segue até o domingo (12/04), no Sindicato dos Bancários, em Belém-PA.
O SINASEFE Natal marca presença na atividade com as servidoras Erivanda Tavares, Izabel Almeida, Monique Oliveira, Socorro Silva, Sônia Moura, Fátima Oliveira, além da funcionária do sindicato Edivânia Santos.
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SINASEFE na luta!
Com informações do SINASEFE Nacional














































































